segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Indelével

Significado de Indelével

adj. Que não pode ser apagado: tinta indelével.
Que não se pode extinguir ou destruir; indestrutível.
Figurado. Que o tempo não corrói; permanente: recordação indelével.
pl. indeléveis.
(Etm. do latim: indelebilis.e)

indelével. In: Wikcionário, o dicionário livre [Em linha]. Flórida: Wikimedia Foundation, 2016, rev. 29 Agosto 2015. [Consult. 5 jan. 2016]. Disponível em WWW:<https://pt.wiktionary.org/w/index.php?title=indel%C3%A9vel&oldid=1990193>.


Indelével é a memória no tempo, da escrita e do desenho, efectuados de forma compulsiva, automática, irracional, com uma constância activa com raras intermitências, que só parou pela exaustão, para de novo voltar e sobre a qual não temos qualquer domínio da vontade. Foram semanas e semanas sem abrandamento, nem um real valor humano que pelo menos, tirasse dali o papel, ou partisse o lápis ou a malvada da caneta. Não, o ambiente climatérico estava péssimo, induzia ao isolamento no interior da morada, chovia diariamente, constantemente, e havia uma estranha humidade no ar que nos fazia doer os ossos o que durou mais de um mês. Nada aparentava que, de repente, no fundo daquele covil, se desse uma tão inesperada mudança de atitude. Sem aviso prévio, nem telegrama pontual ou telefonema eventual, o Sol despontou por detrás das nuvens e algo se transformou. Ela voltou de repente. Era sazonal. Tinha chegado uns dias mais cedo, disse; querida Prima e a sua maior “amiga”, a Vera. Foram num sonho de abstracções duas aparições reais. Sobre as quais resolvi manter um discreto silêncio perante a aldeia. Como ainda ninguém tinha avistado uma andorinha, verdade foi que duvidaram que a Prima e a Vera tivessem chegado.… … Não foi um Verão qualquer, nem parecido a muitos outros… A alegria esteve sempre entre os presentes, desde os adultos, tios, avós, aos minúsculos, coelhos, cães, gatos, era contagiante a festividade., inclusive sobre um certo ambiente familiar, mais matriarcal, muito psicossomático-religioso-hipocondríaco-e-devasta-auto-estimas.
O que continuava sempre a acontecer era o rio a secar no Verão e as pedras frias a aquecerem no fogo das salamandras para depois aquecerem os lençóis das camas... fazia frio...

EM CONTÍNUO… !!!

E recordo-me bem, de todos os anos elas nos trazerem a alegre certeza de que as estações do ano, e a sua alegre memória se processavam tal e qual como nos tinham ensinado nas aulas de Estudos do Meio Ambiente... e o mais adequado era acender lareiras às memórias de outros tempos em que quando chovia, a terra molhada cheirava bem, enquanto comíamos as uvas das videiras e as maçãs das macieiras...

Devia ser essa, a tal, a antifonal metalinguagem musical que nos faz perder os sentidos em espasmos sonoros de prazer aveludado, dedos famintos, doridos, sobre teclas obscenas, carentes, exigentes e insaciáveis... As noites foram claras. E tantas, que a vista chegava a faltar só de tanto querer ler o livro em Branco, o do vadio.
Só esse livro é que contém as nossas memórias indizíveis. E de tal maneira é Branco que nunca as conseguimos ler ou ver convenientemente.
E se assim é? Como podem então ser memórias? Serão recordações? Acho que também não são! Afinal nem marcas lá deixámos ficar!
Também não somos o vento passado nem somos o tempo esquecido.

Somos o quê então?

E então? se nem sabemos o que somos? para quê recordar? recordar o quê?

E se o tempo nos enche a alma de pressa para não termos tempo de viver com tempo então também não nos deixa ter tempo para saber em que tempo é que devemos morrer…O que é que resta?
Experimenta encher-te de vazio; se não existir espaço suficiente, deixa morrer a noite e o dia pois são eles os que mais nos consomem. Vão ficar assim cadáveres regulares, uniformes e em sossego, durante bastante tempo, (penso eu).

E nós, como bichos disformes, caberemos todos na mesma circunstância cristalina do paraíso.

Mas como o universo é incansável e teimoso, verás que vai voltar a repetir o ciclo, só por repetir, desde o início até ao infinito minuto de todo o nosso penar.
Vai Acordar a Lua, vai adormecer o Sol…
E a nós? Só nos resta continuar a envelhecer, esse é o nosso inevitável prazer partilhado com o destino, que o tempo não poderá nunca roubar!

PS: não me recordo de nada tão mesquinho ou auto-comiserante como perder «tempo» a redigir memórias que só o tempo tem…

São só espasmos sombrios, são só espasmos indeléveis.