terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Igual

Acordo,  e dou inicio ao complexo conjunto de acções, que num fluxo de inconsciência, me conduzem à inserção na homogeneidade do mundo, completamente alheia ao automatismo de cada gesto, até de cada pensamento, e o quão estou condicionada à realização de cada um deles.  

No decorrer deste ritual, na correria incessante que acompanha o passo de todas as outras pessoas, o relógio cujos ponteiros me impedem de adiar o começo de um novo dia, entro no eléctrico e a fluência de pensamentos não sofre nenhuma alteração, contrariamente, mesclam-se com os sons característicos ao movimento do mesmo.  Até que o eléctrico deixa de produzir som, e como que instantaneamente a minha mente é transportada para o presente.  Fomos parados por um semáforo. Apercebo-me da quietude que me rodeia, como se conectado à translação do comboio, estivessem todas as pessoas, e a súbita paragem tivessem conduzido à estagnação do tempo no seu interior.  Ninguém se movimentava e o único ruído provinha do mundo que continuava a acontecer e do ranger permanente das madeiras estruturais do comboio e apenas o respirar me assemelhava a tantos outros. Abstraindo-me da razão pela qual estava naquele eléctrico, do atraso que fazia a minha pulsação mais rápida e olhei à volta, senti que não me lembrava da última vez que o tinha feito. E naquele momento questionei a razão pela qual não o fazia mais vezes. Embora a resposta fosse óbvia para mim, motivo de reflexão frequente. Mas não deixava de ser incompreensível.  Incompreensível, o porque de estar ali, o porque de ser igual aos outros.